Daniel Senise

Sudário – Memória 1

Bernardo Mosqueira

Em 1987, Senise foi convidado para realizar o cenário de uma peça teatral no Rio de Janeiro e decidiu construí-lo como um mugshot (retrato de presos) inspirado no Sudário de Turim. Essa escolha rendeu a censura da peça por parte do dono da casa de espetáculos. Dois anos e muito pensamento depois, num momento em que o artista sentia a necessidade de criar uma formalização para a sustentação conceitual de seu trabalho, Senise cunhou para sua prática o termo “Sudário-Memória”.

A palavra “sudário” pode ter diferentes sentidos, o primeiro deles (como expressa sua etimologia) é relativo à função de secar o suor atribuída a alguns panos no passado. O uso mais comum em português, entretanto, está ligado ao “Santo Sudário” ou “Sudário de Turim”, uma peça tão controversa quanto misteriosa, que mede mais de 4 metros de comprimento, e que exibe as marcas da frente e das costas de um homem aparentemente morto por crucificação. Parte dos cristãos acredita que este manto cobriu o corpo de Jesus entre seu sepultamento e sua ressurreição e que, neste processo, os detalhes corporais de Cristo teriam ficado milagrosamente marcados para que o tecido fosse usado como instrumento de fé e devoção. O ilustre “Sudário” é classificado como uma “acheiropoieta”, ou seja, um ícone formado sem o uso das mãos e por meio de um milagre (como o Véu de Verônica e a Tilma de Guadalupe, por exemplo).

Daniel poderia ter criado um termo para seu trabalho a partir da ideia da gravura, do carimbo, da matriz, do contato, do espelhamento, de uma roupa que o chão veste, de uma pele que o mundo troca, mas escolheu Sudário-Memória. Na prática, a técnica de emplastar o tecido com uma mistura de goma e pigmento é até mais próxima do que faziam os sacerdotes embalsamadores com as múmias no Egito. Mas vamos deixar essa comparação para outro texto. Se essa foi a escolha de Senise, me parece proveitoso pensar sobre esse termo.

O sudário de Daniel pode ter em comum com o ícone cristão o fato de ser resultado de um pintar sem pincel, de criar imagens que são lembranças da materialidade de algo ausente ou distante, de gerar uma representação por meio do toque imediato entre o suporte e o objeto, etc. Tudo isso já foi dito de uma forma ou de outra e, por essa leitura, o sudário produzido por Daniel mostraria as marcas da morte (e da ressurreição) do corpo do mundo. Porém, se pensarmos na forma como Francis Bacon inspirou o jovem Senise por seu caráter autobiográfico, podemos imaginar que o sudário de Daniel pode ser, também, entendido como o pano impregnado pelos fluidos de suas ações, superfície onde se revelam as marcas de sua própria passagem pelo mundo, um sudário em sua memória.

 

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