Daniel Senise

Primeiro capítulo

Bernardo Mosqueira

Naquele começo, tudo aconteceu muito rápido. Em 1984, o jovem Daniel Senise passou a lecionar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. No mesmo ano, participou da ilustre exposição “Como vai você, Geração 80?” (que acaba de completar 35 anos em 14 de julho de 2019) com a pintura “Sansão” (mais abaixo). Logo, ele ganharia o prêmio do IV Salão Brasileiro de Arte e seria convidado por Sheila Leiner para participar da controversa 18ª Bienal de São Paulo (que ficou conhecida como “A Grande Tela”, em 1985). Com o convite, Senise decidiu deixar o emprego no banco e passou a se dedicar exclusivamente à pintura. Nesses primeiros anos, Daniel se questionou muito sobre o sentido da própria produção, buscando perceber e definir cada vez mais os seus interesses, sua poética, sua linguagem. Senise concluiu naquele momento que seu campo de experimentação seria a pintura e que seu desejo era desenvolvê-la como uma plataforma na qual pudesse inserir os elementos que lhe eram significativos para a construção de um universo próprio. A representação é sempre um jogo de perdas e ganhos e, naquelas pinturas iniciais, de grande formato e baixa variação cromática, Daniel trilhava um caminho de fuga da banalidade do mundo, produzindo imagens de forte presença mas muito mistério, baseadas em figuras heroicas, objeto domésticos do cotidiano, referências de história da arte e da própria vida afetiva e familiar. Nesse primeiríssimo momento, eram em grande parte figuras brancas volumosas, fragmentadas e enigmáticas, talvez esculturais, talvez fantasmagóricas, repousadas sobre a linha chão, posicionadas sobre fundos negros e que ocupavam as composições até quase o limite das bordas ou chegavam mesmo a ultrapassá-las.

Em 1987, foi iniciado o desafio de pintar a óleo. Precisando de mais tempo para a secagem, transformou sua técnica e, podendo olhar e tratar das telas por um período maior, começou a botar e tirar tinta da superfície inúmeras vezes. Obcecado por aprimorar a fatura e por desenvolver uma singularidade processual, estilística e conceitual, Daniel passou a pintar por tantas horas seguidas que desenvolveu uma enxaqueca pela inalação dos químicos característicos da alquimia da pintura à óleo. Nesse momento, Senise já estava absolutamente inspirado pela liberdade de Sigmar Polke e pelas relações poéticas estabelecidas entre as imagens formadas e as técnicas e materiais utilizados pelo artista. De Polke apreendeu a noção de que os suportes tradicionais da arte (entre eles, a pintura) não são neutros e que tudo o que participe da composição de uma obra é escolha do artista, que gera qualidades distintas de corporeidade e vibração.

De maneira bastante contrastante com as gerações hegemônicas anteriores na arte brasileira, Daniel Senise (e parte dos artistas da chamada Geração 80) não via seu trabalho como um lugar ideal para a explicação das relações de poder no mundo, com comentários ou reações aos fatos políticos nacionais. Suas questões eram mais relativas à própria pintura e aos processos de imaginação, nos sonhos, nas memórias, nos delírios. Com a tinta à óleo, suas pinturas ganharam transparências, densidades e sombreamentos que permitiam cenas cada vez mais oníricas. A partir de sua experiência como filho de um piloto de aviação comercial, Daniel começou a representar acidentes de avião e outros objetos voadores ou flutuantes mais ou menos inidentificáveis, em cujas estruturas desconhecidas podemos ver os esqueletos, ocos e peles. Aparecem sobre a tela nesse momento rabiscos e insinuações de anotações incompreensíveis esgrafitados.

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