Daniel Senise

Piano Factory 02

Agnaldo Farias

Se toda pintura é um ato afirmativo, conclusão reiterada pela pose clássica do artista empunhando o pincel contra a tela, também é fato que ela nasce de uma nostalgia. Fixada numa parede, sua existência pretende eclipsar a presença dessa mesma parede, oferecendo uma imagem em troca da sua opacidade. A ideia da pintura como janela, pintura como representação de algo, como signo de um corpo ausente, projeto levado ao extremo com a pintura de efeito trompe-I’oeiI, parece encontrar sua razão de ser na compensação da perda da paisagem que construção de paredes impõe. Contudo, ainda que sejam figurativas, essas pinturas de Daniel Senise põem por terra qualquer ideia de compensação. Mesmo porque não há como, nesta altura, escorar-­se em qualquer representação, por mais verossímil que ela seja. Vai daí que optam pela materialidade que tomam emprestada do chão, uma referência tão enfática que, tão logo identificada, logra vergar os olhos de quem as contempla, embutindo-lhes gravidade e lentidão. E se, diante dessas pinturas, os olhos do espectador estão erguidos, é fato que vão tendo a paulatina consciência do chão em que estão pisando.

Embora todas as telas pertencentes a essa série representem ambientes vazios e a mesma baixa temperatura cromática, variando entre o cinza e o amarelo sujos, carregando os padrões e as ranhuras de chãos variados, consultando-se as etiquetas de identificação, fica-se sabendo que foram retiradas de fontes diversas. Ao lado daquelas que reproduzem os espaços onde se produz arte, ateliês e escolas, outras reproduzem os interiores de algumas instituições internacionais dedicadas à arte contemporânea. Galicia Art Center, Huntington Hartford Museum, Dia Art Center são alguns dos espaços surgidos no bojo do crescimento exponencial do número de museus e galerias ocorrido nos últimos vinte anos, a febre que converteu essas instituições nos novos templos de culto a objetos fetichizados, prometendo a fruição das obras de arte como a possibilidade de um parêntese no cotidiano opaco. O assunto dessas telas fica sendo o próprio sistema de arte, mas não só: cotejando-se ainda outras pinturas, repara-se que, na trilha de outras telas produzidas a partir de obras referenciais da história da arte, de autoria de Giotto, Whistler, Caspar Friedrich, são espaços igualmente subtraídos de pinturas.

Um travo melancólico perpassa toda a série, dado que a única paisagem que apresentam com intermitência, a paisagem que restou para protagonizar as pinturas, são versões dos ambientes onde se expõem obras de arte, entre elas a própria pintura. É como se o arco temático da pintura fosse encerrado. Ao fazer uso de seu espaço para tematizar os espaços destinados a ela ou os espaços de outras pinturas, a pintura de Daniel Senise coloca-se dentro de um labirinto. Seu projeto poético, agora fica claro, consiste em fazer uso da linguagem para então insinuar-se para dentro de outra linguagem. Ali dentro, de tocaia, parodia os códigos oferecendo releituras, realiza ironias, incorpora soluções e processos, torna-se seu próprio horizonte e destino.

Os pisos dos ateliês em que essas pinturas foram projetadas e construídas é o lugar onde o artista pensa e realiza essas salas despojadas, nas quais as obras de arte e aqueles que as cultuam ou ainda não chegaram ou já se foram, embora possamos imaginar e reconstruir o murmúrio dos grupos e o périplo respeitoso dos espectadores, avizinhando-se da obra para verificar um detalhe, o nome do artista e do título da obra. Os ambientes são monumentais, a arquitetura exibe com orgulho a lógica de sua estrutura, a regularidade das lajes nervuradas, a verticalidade hierática dos pilares, a vasta extensão de suas paredes limpas e cegas. Nessas arquiteturas não há janelas. Não há abertura para o exterior por onde se possa contemplar o universo. Não, esse artifício é desnecessário: o mundo da arte é autossuficiente, as obras de arte bastam por si só e devem ser apreciadas sem interferências. E não deixa de ser estranho que, depois de tantos haverem se batido pelo estreitamento dos laços com a vida, a arte seja colocada num nicho à parte.

Dos espaços para a arte para os espaços na arte. Homologamente a estratégia de se projetar um espaço pretensamente neutro para o abrigo e exposição de obras de arte, os espaços internos das pinturas de Edward Hopper, tema de uma das telas aqui apresentadas, são protagonistas na construção das cenas tristes, inundadas por luzes crepusculares que projetam as sombras de homens e mulheres isolados. Mas não que isso signifique que o artista se interesse por inventar novas narrativas. Não nessa série. A pintura em seus parâmetros clássicos é visitada criticamente para, descarnada de pessoas e mobiliário, converter-se na base de uma nova pintura. Da imagem ao signo mais abstrato, a representação reduz-se ao seu termo mais estrito, regride à condição de esquema, cuja única substância possível capaz de lhe revitalizar é exatamente aquela que Senise lhe injeta: o sangue coagulado do chão onde pisa e trabalha.

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