Daniel Senise

Piano Factory 01

Agnaldo Farias

Mais do que nunca o silêncio e o vazio são os assuntos desse conjunto de telas produzidas por Senise nos últimos anos. De início se é atraído por essas imagens de espaços desabitados, imagens que no geral têm a escala do corpo do espectador, que o envolve por sua similitude com o espaço no qual ele está. As perspectivas imponentes e de construção complexa como que o obrigam a buscar o centro de cada um desses cenários, convidam-no a passear por eles, a varrê-lo de cima a baixo com o olhar, a espreitar o que vai através desta ou daquela porta, imaginar o que acontece na outra sala, sempre esperando que algum outro protagonista irrompa para desfazer a atmosfera de solidão. Aproximando-se, vê-se que suas cores, variações de tons de cinza até o amarelo-terra, resultam de uma superfície repleta de manchas, nódoas, cortes, ranhuras, traços e lacerações, como uma obra feita pelo acaso, ao sabor de acidentes diversos. Simultaneamente, descobre-se que a superfície da tela foi obtida através do corte sistemático de um primeiro tecido, corte realizado por facas afiadas, estiletes de lâminas agudas, e remontado em longos segmentos separados um do outro por linhas finas e retas. E é ainda neste exame que se percebe a recorrência do padrão orgânico dos veios de madeira paralelas, que se descobre que a superfície dessas pinturas foi obtida do chão, arrancada do chão, de chãos dotados de tábuas de madeira e que agora estão levantados diante de nós, obrigando-nos a palmilhar com os olhos sua natureza concreta e tangível.

Desde fins dos anos 80, Daniel Senise faz uso desse processo que consiste em deitar contra o chão a face de uma tela já iniciada, com a tinta fresca, para erguê-la depois de um tempo. O resultado é uma troca entre as duas superfícies, dito de forma técnica, uma monotipia: de campo que passivamente recebe as sobras do processo, os excessos de tinta mais ou menos viscosos que caem durante a realização da pintura, o chão se converte num território ativo que deixa suas marcas impressas na pintura, até mesmo pequenos detritos. A incorporação do acaso por essa via funcionava como um comentário contra a natureza transparente da pintura, sua vocação para sublimar sua condição de um objeto preso ao mundo, para oferecer-se como um suporte plácido de imagens. À sujeira do chão colada à superfície da tela, convertida em dado acidental dessa superfície, juntava-se a imagem realizada pelo artista. E se essa imagem era por si só dotada de interesse, o exame mais detalhado revelava a presença de outros elementos igualmente interessantes, muito embora espúrios, que em princípio não pertencem aquilo com que comumente se associa à pintura. De fato, revisando a história da pintura, constata­-se que até bem recentemente ela fez uso exclusivo de materiais puros; o pigmento, não importando sua procedência, era uma espécie de grão da pintura, sua matéria-prima essencial. Senise, desde sempre contrariando essa entre outras normas, é um pintor que pratica e paradoxalmente se recusa a pintar, preferindo se colocar como alguém interessado em expandir a compreensão da pintura como superfície.

Nessa nova série de trabalhos, parte deles elaborados em uma antiga fábrica de pianos no Bronx, bairro de Nova York, onde o artista passou a residir nos últimos anos, ao invés da sobreposição do acidente com o cálculo, o artista inaugura um novo processo. Uma vez realizada a monotipia, do chão decalcar-se nas superfícies dos tecidos estendidos sobre ele, o passo seguinte consiste em o artista recortar esses tecidos em pedaços precisos, de acordo com a perspectiva geométrica de um ambiente arquitetônico; ambiente que tanto pode ser o lugar onde o trabalho foi realizado, uma escola de artes, como a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, quanto “roubado” de uma fotografia de revista de arquitetura, ou ainda de alguma pintura pertencente a história da arte.

Desfeitos em uma série de pedaços, os tecidos serão remontados e colados em função da sua textura. Das diferenças entre os padrões texturais exaltadas pelas linhas que unem os vários planos surge a representação perspectivada de um interior arquitetônico.

Se a pintura, com suas somas e subtrações, com seu cálculo e seu embate com as limitações de toda ordem, será sempre uma afirmação, o chão impresso do ateliê do artista evoca os passos percorridos, as cicatrizes deixadas por ele, pela gente que agora o frequenta e pela gente que já se foi dali; todos deixando sobre ele os resíduos de suas ações. Levantado do chão depois de ter pousado seu rosto sobre ele, fundindo-se a ele, o processo pictórico de Daniel Senise ausculta o presente, deixa-se impregnar por sua densidade, para melhor pensar o passado e o presente da pintura.

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