Daniel Senise

Perspectivas

Bernardo Mosqueira

Desde o começo da década de 2000, grande parte dos trabalhos de Daniel são resultados de exercícios de perspectiva com os recortes dos sudários. Na narrativa hegemônica sobre a história da arte, o advento da perspectiva remonta a Giotto (1267-1337) e Brunelleschi (1377-1446).

O sistema gráfico da perspectiva é o que projeta a ilusão de profundidade sobre um plano de representação. As pinturas de Senise desde então nos possibilitam dois olhares: nos lembram serem pó de mundo sobre superfícies planas e nos oferecem a experiência de interpretação da luz como imagens em profundidade.

Mesmo antes de começar a recortar as teias e criar montagens com essas ilusões de perspectivas, Daniel realizou a série “Ela que não está lá”. Nesse conjunto, Senise se baseia num afresco justamente de Giotto chamado “O funeral de São Francisco”, que fica na Capela Bardi, em Florença, e que mostra ao mesmo tempo o corpo do santo sendo velado por frades. O médico Girolamo conferindo seus estigmas, e a ascensão de São Francisco, elevado em voo por anjos. Anos depois da pintura ser realizada pelo mestre italiano, a capela sofreu uma série de reformas, que cobriram as pinturas com cal e construíram junto às paredes um conjunto de construções tumulares. Mais recentemente, os túmulos e o cal foram retirados e a pintura revelada, não sem apresentar as cicatrizes deixadas pela construção e demolição do tal túmulo. No afresco como ele é hoje, estão presentes relações de tensão entre o voo e o chão, entre o morto e o vivo, entre a fé do santo que toca os anjos no céu e a descrença do médico que toca o morto na terra, entre o corpo de Francisco na pintura e o corpo que outrora estivera no túmulo na capela, entre o entendimento da pintura como imagem (que se direciona à eternidade) e o entendimento da pintura enquanto corpo (destinada ao pó), e entre a ilusão de perspectiva de Giotto e a lembrança do plano causada pela marca das obras. Diante do afresco, podemos focar nos recortes ou na cena. Para a série “Ela que não está”, Daniel reproduziu as formas da marca deixada pelo túmulo e “substituiu” a pintura de Giotto por fundos realizados como sudários. Estranhamente, o vazio que o túmulo deixou na pintura tem o formato que remete ao de uma casa e talvez esse seja um dos trabalhos onde a questão da morte e do vestígio é mais evidente.

A citação a Giotto não foi isolada. Nos primeiros 15 anos de produção, eram comuns as citações mais ou menos claras de obras de outros artistas, como Caspar David Friedrich, Devis, Fra Angelico, Goya, Hobbema, Hopper, Rafael e Whistler. Daquela forma, Daniel se incluía numa tradição da pintura, mostrando proximidades e distâncias, aparições e apagamentos. A obra de Daniel (ainda mais nos primeiros 20 anos) é também fortemente autobiográfica, e as referências da história da arte muitas vezes se relacionavam com questões relativas às cenas do ateliê, aos chãos por onde pisava, aos museus que visitava, à morte da mãe, à vida do pai, à relação com algum amigo ou experiência etc.

Se pensamos que o advento da perspectiva na história da arte foi um sintoma de um momento da cultura europeia em que se começou a considerar prioritariamente a subjetividade individual em detrimento da visão de Deus e da sociedade, percebemos que há uma coerência. Uma continuidade, uma relação direta entre os exercícios de perspectiva e a prática autobiográfica de Daniel Senise.

 

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