Daniel Senise

O vestígio e a aura

Bernardo Mosqueira

Walter Benjamin uma vez escreveu: “O vestígio é o aparecimento de uma proximidade, por mais distante que esteja aquilo que o deixou. A aura é o aparecimento de uma distância, por mais próximo que esteja aquilo que a suscita. No vestígio, apossamo-nos da coisa; na aura, ela se apodera sobre nós”. As obras de Daniel Senise, elaboradas desde o final da década de 1980, são justamente, ao mesmo tempo, compostas por vestígios e dotadas de dimensão aurática.

O conceito de elo-perdido (utilizado como título de uma obra fundante da trajetória de Daniel) nos lembra que os vestígios podem assinalar a impossibilidade de conhecer o passado completamente pelo fato de que grande parte dele naturalmente se perde. O vestígio, como o fóssil de transição, é uma semelhança perdida. Mas ao mesmo tempo o elo perdido (com seus retornos, ressurgências, ecos, rebatimentos e sobretudo lacunas) é o sobrevivente do passado a partir do qual nós poderemos inventar imagens, narrativas, reflexões, formas de ver o mundo e a nós mesmos. A combinação de vestígios na produção de Daniel remonta a uma enorme variedade e quantidade de passados desconhecidos. Isso resulta em presenças gigantescamente misteriosas que apoderam sobre nós, tornando-nos pequenos diante de toda a potência geradora de curiosidade, devaneio, delírio, imaginação. À frente de suas obras, lembramos que toda perda irrecuperável nos dá o presente, o único território possível à vida.

A vida, já se disse, é ordem, a vida apenas, sem mistificação.

Voltar