Daniel Senise

O Vaso Chinês

 Agnaldo Farias

Resultado de dois encontros feitos sob o calor do verão carioca, a entrevista com Daniel Senise rendeu mais do que se esperava. E olha que não se esperava pouco. Afinal, ela acontece depois de sete anos de um acompanhamento sistemático de seu trabalho, que não arrefeceu sequer com sua mudança para Nova Iorque, alimentada que foi, por correio eletrônico que, como todo mundo sabe, diversamente da literatura epistolar clássica — feita a partir de papel de cana, envelope, selo e paciência — possui uma rapidez que faculta o trato de temas sérios até as bobagens e outras bagatelas com as quais aliviamos a carga diária que no nosso país, diga-se de passagem, não é nada fácil aturar.

Desse contato saiu uma exposição e um livro, além de escritos esparsos e apresentações orais — todos eles decorrentes de um acompanhamento sempre interessado e que nunca se frustrou. Desta vez por obra do oportuno interesse do Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba, do agudo senso de oferta de Fabio Coutinho e da notável capacidade transcritiva de Priscyla Freitas Gomes, leva-se ao público esta entrevista — um apreciável subproduto de uma grande exposição pautada em trabalhos recentes do artista projetada especialmente para o público paranaense.

Já não era sem tempo. A obra do carioca Daniel Senise, possivelmente, o primeiro nome que vem à cabeça quando o assunto é a Geração 80 — aquela que sempre será corretamente associada com o momento em que a produção artística contemporânea brasileira firmou-se e se expandiu — é das mais consistentes e, como tal, exige ser mais conhecida. Não só ela, é verdade. Ainda não ultrapassamos a etapa de uma divulgação da nossa arte à altura de nossos principais artistas. Estamos 2006 e ainda vive-se sob a paradoxal constatação de que, no Brasil, as artes visuais mantêm-se invisíveis. Mas prosperamos. Este Museu Oscar Niemeyer, assim como outras instituições sérias, que primam pelo cuidado com as exposições bem como com a constituição de acervos, é um exemplo disso.

Um dos equívocos ensejados pelo desconhecimento e pelo repasse acritíco de informações superficiais, insiste em localizar a produção dos anos 80 como algo fundamentado no binômio arte e prazer. Daniel Senise é uma das provas mais contundentes no que se refere à improcedência dessa ideia. Aspecto que o desenvolvimento posterior do seu trabalho, cuja pequena, embora expressiva, fração atual agora apresentada, confirma amplamente. A obra desse artista, como percebera o leitor de olhos atentos, escorado apenas nas palavras e imagens deste catálogo — ou tendo o privilégio de examinar as pinturas de perto — timbra pela inquietude com que experimenta o tempo, percebe sua materialidade dúctil, transforma-o em fibras para melhor tecer suas telas. E porque lida com o tempo, seu trabalho nunca é, pois nem poderia ser, suave, efusivo, alegre. O tempo é um senhor grave, como grave são suas telas, com seus tons terrosos, suas arquiteturas sombrias, sua persistente evocação do chão, suas imagens fortes e impregnantes, lavradas em escala monumental, o que lhes garante uma eloquência silenciosa.

O atento visitante perceberá que uma das regras essenciais da poética de Daniel Senise consiste no jogo de referências. lnventora e inventada pelo tempo, a linguagem, no caso a linguagem visual, mais precisamente algumas das variadas formas e léxicos expressivos inventados pelos séculos, comparecem embaralhados nessas telas. Será possível reconhecer imagens familiares ou, ao menos, formas de representação familiares; o modo peculiar como ele exerce a crítica da pintura, reflete sobre sua razão de ser nos dias de hoje. Por tudo isso é que o clima geral é vago e os olhos passeiam sem uma solução capaz de lhes saciar a curiosidade.

Trata-se, pois, de uma obra difícil. Não obstante atraente. Capaz de nos deixar em estado de atenção, como nas noites de insônia quando, em estado de vigília, perscrutamos os objetos e os espaços da nossa casa que, submersos na noite, renovam-se pelo contato com o mistério.

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