Daniel Senise

O milagre da visualidade

Bernardo Mosqueira

Em 1992, Senise registraria num caderno de anotações um sonho significativo. Na primeira página está escrito: “O avião começou a fazer as manobras de aproximação sobre um mar cheio de pequenos barcos com cabine”. O desenho que acompanha a anotação deixa claro que o ponto de vista dele é o de piloto ou da própria aeronave. E segue: “(…) O avião ia fazer um pouso de emergência na água. Já não era mais um avião e sim duas longas asas tipo bumerangue”. Na sequência, um grupo de desenhos em que linhas fazem sequências de voltas e retornam para o mesmo ponto. Entre 94 e 95, Senise desenvolveria uma série de pinturas intitulada “Bumerangue” a partir dessas anotações. As imagens são formadas por meio do uso da oxidação de pregos sobre a superfície. Observando algumas dessas obras, como a tela “3 Caminos”, encontramos a relação entre os desenhos e a silhueta de uma menina e, dessa forma, podemos imaginar que os tais desenhos bidimensionais podem talvez representar os traçados das aventuras do olhar pelo espaço. Essas obras de Daniel são derivações inspiradas   por um desenho no livro “Tesouros da Juventude”, uma espécie de enciclopédia para crianças e jovens, que havia sido importante para a infância de sua mãe. Nessas pinturas (como em muitas outras dessa época), as imagens foram realizadas por meio da oxidação de um número grande de pregos de ferro. Nessa série, está presente uma relação muito direta entre o corpo que se decompõe e a cristalização das imagens. Por isso, e além disso, é bom exemplo para se perceber um interesse de Daniel nessa relação entre o visível e o invisível.

Senise se refere muitas vezes à formação da imagem em seu trabalho como se ambicionasse um milagre. Na sua obra, são muitas alusões a momentos de “aparição”, movimentos entre o desconhecido e o reconhecido. Seja a imagem do piso revelada no sudário, o desenho enferrujado deixado pelos pregos, uma palavra insistente pintada no verso, uma imagem por trás de um voal, um olho vivo nos mirando desde o fundo da obra, uma maquete que se agiganta e realiza, uma marca deixada pela luz do sol, uma cor protegida pela sombra, um anjo que se mostra, ou um rastro de bumerangue que se faz visível — são muitos os momentos em que parece que estamos diante de uma revelação, diante de uma imagem misteriosa, rara, cuja apreciação é um privilégio, um milagre. É dessa forma que se fazem cativantes, que, por algum tempo, nos têm em seu cativeiro de encantamento.

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