Daniel Senise

Mistério

Bernardo Mosqueira

Em tudo aquilo que experimentamos na vida, há uma parte essencial que se mantém distante de nossa abertura. O que se vem à presença se mostra enquanto simultaneamente se oculta. Todo encontro, invenção, acontecimento, novidade, é um desvelamento poderoso e falho, uma fissão nuclear de consequências imprevisíveis e incontroláveis. O mistério se apresenta para cada um de nós de uma forma, é pessoal e não aceita contornos. Os problemas ou as questões são talvez solucionáveis e compartilháveis, mas o mistério não. A subjetividade vive no mistério. O mistério é inexorável à existência. Enquanto futuro, dá tempo ao ser. Enquanto passado, é o fundamento mais distante de nossa configuração. Enquanto presença, quando sacrificamos a racionalidade cartesiana aos seus pés, o que nos resta, o que ganhamos? É o mistério que nos move poeticamente. Ele é o responsável por toda sublimidade que podemos viver. O mistério está nas epifanias que resistem ao desencantamento do mundo. Numa sociedade que, em parte, ainda acredita buscar “clareza”, “esclarecimento”, e com princípios fundamentados na “Era das Luzes”, também existe o obscuro, o sombrio, o lado negro da Lua, o que não tem nome, o que não tem regra, tudo aquilo indominável à sensibilidade ou à razão. Diante do mistério, só podemos negá-lo (como modernamente e prosaicamente faz tudo aquilo que é estruturado pela epistemologia hegemônica) ou abraçá-lo (como nos permitem a arte e a espiritualidade, por exemplo). O mistério é inesgotável. E, justamente no momento em que se pensava a sobrevida da pintura (ainda que hoje essa discussão pareça ingênua), foi no mistério que Daniel Senise encontrou um caminho fértil para seu trabalho. Naquele período, ainda estavam bastante presentes as pinturas escuras, com fundos negros e figuras reluzentes (como, de alguma forma, são também os videotextos). Desde aquele início, até hoje, sua pesquisa se adensaria de mistério e desenvolveria um sem número de formas de evitar totalidades, evocar ambiguidades e afirmar a coexistência de diversas perspectivas.

 

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