Daniel Senise

Do pó ao pó

Bernardo Mosqueira

No momento em que Senise descola a tela do assoalho, a camada de poeira, sujeira e restos de toda a ordem, que repousava sobre o piso, é transferida para o tecido. Vemos os detalhes do chão, são marcas de crises, rastros de acontecimentos, vemos o tempo fazendo surgir sua própria potência sobre a matéria, vemos contratempos e a desintegração. Revelada ali está uma fina imagem espelhada do chão, entre o ser e o representar, formada pelo pó de onde viemos e para o qual voltaremos.

O que mantém corpos complexos com todas as suas partes unidas? O que mantém o corpo coeso antes de seu desmembramento, desfazimento, desaparecimento? O que deixa as coisas em pé? Pode ser uma boa pergunta para um religioso, um engenheiro ou um artista.

Na obra de Senise, há essa tensão formada entre a decomposição e a composição, entre a noção da finitude e a vida criativa. Se a matéria do mundo, esses restos de corpos e ações, se faz presente, ela transborda o horizonte da representação e nos coloca necessariamente questionamentos. O que haveria depois do fim? Nós só temos a possibilidade de vislumbrar sobre como são as coisas até o limite do chão. Nascemos sobre ele e, enquanto sobre ele, podemos muito. Quando nosso corpo for para abaixo dele, já não seremos: viveremos apenas nas nossas obras e em nossos filhos (que, como já sabemos, são o melhor remédio contra o medo de ser esquecido).

O trabalho de Daniel guarda relação muito forte com “O marinheiro” de Fernando Pessoa. Diante do corpo que nos lembra que o fim se aproxima, escolhe-se preencher o tempo sonhando, imaginando, justamente criando como forma de vida. Na estruturação dessas imagens, alguns elementos têm importância especial.

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