Daniel Senise

Daniel Senise e Botafogo

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Daniel Senise sempre marcou seu trabalho com os vestígios de um corpo ausente. Esse fantasma nunca aparece na superfície ou no resultado final das obras com a integridade que teve em outro momento do processo artístico, do contrário jamais poderia ser chamado com esse nome, “fantasma”. Memória de um corpo — físico ou simbólico — que já teve outra vida e outra envergadura, este espectro que alumbra e assombra a obra do artista carioca desde os anos 80 casou-se perfeitamente com o bairro de Botafogo, região da cidade sobre a qual ele se debruçou nestes Mapas Invisíveis.

Em Botafogo, projeto site specific criado especialmente para o lugar da exposição, Senise ocupou o piso da Galeria 1 da Caixa Cultural ainda vazia, antes da entrada dos outros trabalhos, com as folhas caídas das árvores do Cemitério São João Batista em um único dia: 22 de junho de 2010. O contorno da sala criou um perímetro no espaço museográfico que foi invadido por um novo mapa. Traçado orgânico mais que literal, a imagem dessa enorme quantidade de material vindo do cemitério, um lugar tabu, gerou uma sensação de avenidas marginais, de outro mundo possível. Mas também de um enorme bolsão periférico, ostensivo, pesado, ameaçador.

Depois de desenhado, o mapa de Senise foi fotografado ponto a ponto, com a sequência de imagens criando em um espaço virtual o mesmo perímetro visto de corpo presente na Caixa. Uma pilastra central no centro da sala foi aproveitada para a instalação de três dessas imagens, montadas intencionalmente sem moldura. Presas com alfinetes, como um projeto em construção, as fotos se sobrepunham, recuperando parte do traçado, o de um dos lados do quadrado que dá forma à galeria.

A sobreposição das fotos aponta para outras camadas que cobrem umas às outras. Botafogo é uma encruzilhada de fantasmas. Vindas do lugar da morte, as folhas começam a virar pó lentamente depois que se desprendem das árvores. Recolhidas em um único dia com a ajuda dos coveiros, a leva que foi para a Caixa encerra uma ideia de ciclo. As aleias e sepulturas podem ser varridas hoje pela equipe do cemitério, mas, depois de um novo amanhecer, outras folhas estarão ali, ocupando o território que na véspera foi de outras. Um espelho para o fluxo diário do São João Batista, que ainda é o mais nobre do Rio de Janeiro.

Os mortos de um dia sucedem os do anterior, com diferenças apenas no luxo das coroas, no preço do esquife, no tamanho do cortejo. Essas sutilezas caem por terra, literalmente, depois que o caixão desce à sepultura: dividindo sua geografia entre mausoléus suntuosos e uma grande encosta com gavetões ordinários, o cemitério iguala pobres, ricos e remediados do Rio em sua hora final.

Botafogo, o bairro, é também uma espécie de fantasma na história carioca. A cidade de São Sebastião começa oficialmente na Urca, com a fortificação erguida por Estácio de Sá para defender a Baía de Guanabara dos ataques estrangeiros, sobretudo da invasão francesa. Depois de vencido o inimigo, garantidos os domínios da Coroa lusa, a Urca começa a ser desocupada e passa a ser chamada de Cidade Velha. Os portugueses endinheirados, que já faziam fortuna com os engenhos de açúcar e outras atividades, erguem suas residências em bairros como a Glória, o Flamengo e Botafogo. O Cemitério São João Batista foi inaugurado em 1851 e demonstra um momento em que a região já tinha mortos suficientes para gerar a necessidade de um território para enterrá-los.

Foi em Botafogo que Carlota Joaquina resolveu morar, depois que chegou ao Brasil com Dom João VI e cerca de 10% da população de Lisboa. A praia, dizia ela, fazia bem ao seu humor. E, hoje se sabe, era também uma boa desculpa para poupá-la da convivência diária com o marido, instalado na Quinta da Boa Vista. Para encontrá-lo, Carlota empreendia uma pequena viagem. A escolha da rainha seria a mesma de uma elite comerciante, que ergueria no bairro casarões suntuosos. Com a migração do eixo de status para as praias oceânicas — Copacabana e depois Ipanema e Leblon —, as mansões de Botafogo foram abandonadas.

Em 1951, a demolição do Palácio Mourisco para a construção do Túnel Novo significou a derrocada dos anos de fausto. Botafogo virou um bairro de passagem até ser redescoberto recentemente, primeiro pelos produtores culturais de cinema e casas noturnas, depois pela especulação imobiliária. No rastro desta nova fronteira de ocupação, muitos dos palacetes ecléticos que ficaram décadas desocupados estão sendo demolidos. A lembrança melancólica, mas riquíssima, dos tempos dos barões está vindo abaixo para dar lugar a condomínios. Os imóveis que sobrevivem viram pontos de comércio, sobretudo laboratórios.

Cidades que morrem e outras que nascem, é disso que fala esta exposição. A partir desse pressuposto, é muito rico e plausível o diálogo entre a obra de Senise, o trabalho que o artista criou para Mapas Invisíveis, o São João Batista e o bairro à sua volta. Uma lápide que marcou um afresco de Giotto marcaria também a carreira de Senise. Ao criar a série de quatro pinturas Ela que não está, de 1994, o artista sintetizou, no título do trabalho, um dos motores de sua obra, talvez o maior deles. Em vez de pintar as figuras criadas por aquele que talvez tenha sido o primeiro pintor reconhecido como tal pela história da arte, Senise deu corpo ao lugar da falta, ao signo da morte, à não­imagem.

A morte e a ressurreição das imagens continuam muito presentes no trabalho que o artista vem realizando nos últimos anos. Botafogo, que ganhou a tridimensionalidade da galeria, ecoa em Eva, instalação criada com tijolos feitos com a reciclagem de convites de exposição, ou com a sala apresentada por Senise na última Bienal de São Paulo. Soltos no espaço, seus fantasmas talvez sejam menos evidentes. Mas continuam potentes.

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