Daniel Senise

Chão

Bernardo Mosqueira

A relação com o chão aparece na obra de Daniel de maneira bastante significativa. Seja como parte do processo de elaboração das telas (que produz a fisicalidade das telas com as impressões) ou como elemento que orienta as composições das imagens. A primeira maneira talvez já tenha sido suficientemente tratada nesse texto. Mas ainda é importante ressaltar o chão como elemento ordenador na imaginação de Daniel.

Como já vimos, também, sob o chão está o inatingível, o inexperienciável, a morte (não há eu para a verdadeira morte, não existe o encontro entre mim e ela. Podemos apenas assistir ou imaginar a morte de outros). Sobre o chão, estamos nós, que nascemos olhando para ele, engatinhamos, andamos, corremos, amamos, pulsamos, fazemos escolhas, criamos marcas sobre ele. Mais acima, para além do chão, nas alturas, estão as imagens, os sonhos, a imaginação, tudo aquilo que, em seu universo próprio, pode ignorar as leis da natureza: seja a gravidade ou a finitude. Acima de nossas cabeças está tudo que cansou de ser moderno e agora será eterno.

Desde os anos 80, há uma recorrência de elementos como aviões, balões, objetos flutuantes, bumerangues, mulheres levitantes, pássaros, anjos, colunas que sobem até o infinito, estruturas que erguem casas nas alturas, toda uma diversidade de formas de evitar ou se afastar do piso. Sobretudo, há uma centralidade muito recorrente dada ao espaço entre as coisas, a ser preenchido de imagens e ações.

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