Daniel Senise

Antes que o galo cante

Bernardo Mosqueira

Em 1980, Daniel Senise, engenheiro recém-formado, trabalhava coordenando o projeto gráfico de videotexto do Banco Nacional. Com grande interesse em cultura, imagem e literatura, decidiu realizar um filme em colaboração com um amigo, baseado no poema dramático de Fernando Pessoa chamado “O Marinheiro” (1913). Naquela narrativa, três mulheres vestindo roupas escuras, como o ambiente, velam o corpo de uma quarta mulher, vestida de branco, durante a madrugada, à espera do nascer do Sol. Elas conversam de frente a uma janela, através da qual se pode ver um pedaço de mar. Iluminadas por tochas, quase à sombra, começam a debater sobre o que fazer com todo aquele tempo que tinham. A confabulação entre elas cria uma atmosfera nebulosa, sobretudo pela impossibilidade de distinguir entre invenção, sonho e lembrança no que elas dizem. Estabelece-se um ambiente de alta tensão entre a natureza ficcional, distante e duvidosa das falas das três mulheres e a presença física, real, daquele corpo inerte, frio, esticado, precisamente morto. Uma segunda tensão (semelhante à do poema “As Peras”, de Ferreira Gullar em “A Luta Corporal”, de 1954) se constrói pela ausência de marcações do tempo diante da evidência material da finitude que se aproxima. De repente, o galo canta, interrompendo a madrugada e o sonhar.

“O Marinheiro” é um texto que infiltra a rigidez pétrea da morte com os fluxos de oniricidade e invenção. No processo de pensar a decupagem daquele filme, Senise propôs ao amigo a inclusão de um plano que mostrava um vaso chinês que estava ali na sala de sua casa onde se reuniam. Indagado pelo companheiro sobre o que motivaria aquela aparição curiosa, não soube explicar, e, por isso, o processo foi interrompido e o filme nunca realizado. A necessidade de comunicar ideias de maneira argumentativa (característica dos processos coletivos ou em equipe) afastou Daniel do cinema. Logo, ele se dedicaria à pintura, na qual se sentia livre para tomar decisões mais silenciosas e intuitivas.

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