Daniel Senise

Antes da Palavra, paisagens e ações

Daniela Labra

Sem árvores, rochedos, marinas ou campinas, esta pode ser considerada uma exposição de paisagens — um dos grandes temas da pintura e sua história. A paisagem na obra de Daniel Senise é, contudo, imagem não naturalista de aspecto volátil a ser decodificada pelo sistema de pensamento e signos de uma época cuja arte se afasta da representação para apresentar o mundo real, tornando o motivo da obra o próprio modo como esta se insere no plano que chamamos de realidade.

Atuante desde os anos 1980, Senise refinou até o limite do apagamento o elemento figurativo presente em sua obra inicial, em um caminho de construções conceituais sobre o universo da pintura, sua tradição acadêmica e a dicotomia natureza/cultura na arte. Ao mesmo tempo, aprofundou investigações sobre técnicas, materiais e suportes para além da tela, renovando e rearticulando os interesses que sempre configuraram sua base discursiva-visual e alcançando resultados que praticamente levaram à obliteração da ilustração no seu trabalho. Desse modo, referências e apropriações da história da arte ocidental, experimentos com tensões volumétricas, justaposição de matérias, evocações de vazios, criação de paisagens mentais, arquiteturas e memórias conjecturais são apresentadas em composições que reformulam a cada vez noções de espacialidade, temporalidade, presencialidade, memória e apagamento.

A ausência na presença é um paradoxo explorado pelo artista em toda sua obra, sendo esse um tema que remete à ideia de Vanitas, muito associada ao gênero da natureza-morta na pintura europeia do século 15, em especial à flamenca e à poesia barroca. Vaidade, futilidade, opulência em contraste com a efemeridade da vida configuram o motivo Vanitas. Ainda que em Senise a figuração esteja em plano subjetivo, a paleta cromática baixa e os planos espaciais vazios ligam-se a questões da transitoriedade da existência e ao tempo que tudo constrói mas também devora.

A importância do dado temporal no discurso visual de Daniel Senise é evidente, não estando apenas ali como tema mas como parte do seu método para gerar imagens e pigmentações; as marcas e manchas visíveis nas superfícies das peças são prova de um tempo transcorrido que é protagonista. Nesse lugar, a representação do tempo que transcorre — como numa natureza-morta — é substituída pela temporalidade de fato, palpável, a qual exacerba um segundo paradoxo, o da representação/real, contido na obra de arte contemporânea.

A forma tela-pintura-janela é onipresente no trabalho do artista, e a bidimensionalidade pictórica é tautológica nos recortes quadrados ou retangulares vazios de imagens que conduzem à elaboração de paisagens mentais individuais. Ao mesmo tempo, contudo, a percepção do espectador é contingenciada no aqui e agora do real, ao modo do minimalismo, como aponta o filósofo Hal Foster. Assim, o sujeito que olha é confrontado menos com possibilidades de elucubrações oníricas do que com o niilismo de obras cujas discussões orbitam em torno de seus próprios materiais marcados por tempos de uso ou esquecimento. Nesse movimento, as paisagens referidas neste texto nada têm a ver com representações da natureza em si, sendo mais bem ativadoras de memórias atadas a cotidianos não artísticos transformados em poesia melancólica. Entretanto, resta ainda um sopro onírico, mais bem fantasmagórico, que sempre parece nos salvar do enorme peso da materialidade que insiste em evocar o incontrolável e duro real na arte de Daniel Senise.

Esta exposição reúne 23 trabalhos do artista carioca, entre pinturas e objetos, articulados em torno da instalação monumental 1.587, constituída por duas grandes telas suspensas no átrio da Fundação, postadas frente a frente, cujas lonas são lençóis usados em um motel carioca e no INCA (Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro). O título da obra decorre do cálculo de pessoas que passaram por esses lençóis ao longo de seis meses, em ambos estabelecimentos. Os números das presenças/ausências impregnadas nos tecidos foram alcançados com a ajuda de um matemático, e nomeiam cada face da instalação: “Branco 237” refere-se à movimentação no hospital, enquanto “Branco 1.350”, no motel. Somadas, essas cifram atingem 1.587 dramas e êxtases de desconhecidos amalgamados nesta obra de aspecto solene e vertiginoso. Em Porto Alegre, contudo, por questões de adequação ao espaço, vemos uma versão reduzida do trabalho original, intitulado 2.892, criado no final da década de 1990 e exibido apenas em 2011, na Casa França-Brasil, Centro do Rio.

Em diálogo com indagações presentes nas obras de Daniel Senise, uma programação de intervenções sonoras foi elaborada trazendo à Fundação Iberê Camargo ações de seis artistas que pensam o som espacial, material e conceitualmente, ou seja, para além de uma estrutura melódica. São eles: Marcelo Armani, Ricardo Carioba, Raquel Stolf, Pontogor, Tom Nóbrega e Felipe Vaz. Evocamos assim a filosofia antiga dos Estoicos, para quem a ação era prioritária à verbalização das ideias, e combinamos ato e pensamento para tomar o interior da instituição numa grande caixa de reverberações de silêncios e rumores em proposições que indicam deslocamentos temporais, ausências, espacialidades virtuais, interrupções de fluxos, assincronia, paisagens de som e outros motes integrados às ruidosas ideias primordiais contidas nas pós-pinturas que conformam esta exposição: Antes da Palavra.

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