Daniel Senise

Acontecimento

Bernardo Mosqueira

Em 1987, Senise preparava obras para duas exposições coletivas nas quais participaria em Paris, no MAM e no Crédac. Os temas estavam cada vez mais pessoais e, mirando novamente a Bacon e Polke, sentia estar fazendo de sua pintura uma prova bastante matérica de sua passagem pelo mundo. Algumas das telas que queria realizar eram grandes demais para as paredes do ateliê, e ele decidiu prepará-las sobre o chão, que, então, guardava uma quantidade muito grande de restos de tintas de processos pictóricos anteriores. Ao levantar a tela para o plano vertical, os restos de tudo, a poeira, a sujeira, e a tinta, que se acumularam sobre o chão, haviam sido transferidos para o verso do tecido, respeitando as formas das ranhuras, rachaduras, buracos e demais detalhes do relevo do piso. Essa experiência de serendipitia, de revelação quase mística ou milagrosa (mais abaixo), seria definitiva para a obra de Daniel. Logo o artista repetiu o procedimento em outras áreas do ateliê e posteriormente em outros locais. Senise inventou diversas técnicas a partir dessa descoberta ao longo dos anos.  Inicialmente, trocou o linho pelo cretone, e trocou o óleo por novamente uma mistura de base acrílica com pigmentos (agora já de melhor qualidade). Numa época, passou a jogar com a relativa transparência das telas, escrevendo ou pintando no verso para que as marcas aparecessem na frente. Os panos resultantes dessa técnica, por alguns anos, foram utilizados como fundos para séries de trabalhos do artista e esse uso resultava na construção de uma visualidade etérea, onírica. Em dado momento, Senise passou a sobrepor pequenos objetos costurados ou colados às telas e, depois, utilizou ainda a oxidação de pregos ou outros produtos metálicos para marcar os tecidos. Por um período, misturou o óxido de ferro com resina para criar formas fragmentadas sobre as telas. Nessa época, teve a sensação de ter finalmente dominado os meios de criar a relação conceitual que tanto buscava entre aquilo representado e as técnicas e materiais utilizados para essa representação.

Em 1992, Daniel se mudou para Nova York. No momento do nascimento de seu filho, ao receber em suas mãos o bebê que nascia para este mundo, se surpreendeu com o fato de ele ter nascido com o rosto voltado para o chão e não para ele, como esperava. Naquele primeiro segundo, o que o atravessou mais fortemente foi a sensação de que, um dia, aquela vida que magicamente começava ali também teria um fim. Desde então, acredita ter perdido o medo do vazio e da morte. Pouco tempo depois, sentado em um aeroporto em Nova York, vendo os aviões decolarem e pousarem, teve a ideia de dilacerar os tecidos em diversas partes para, a partir da recombinação dos fragmentos, montar novas imagens. Entre 1988 e 2019, mais de 30 lugares foram experimentados por essa técnica, em diversas cidades do Brasil e dos Estados Unidos, formando uma coleção enorme de diferentes tons e texturas. Esse acervo foi e é a base da maioria das séries de trabalho do artista desde então. Foi ainda em 1992 que Senise conceituou o que vinha fazendo com as impressões dos chãos sob as telas, como o “Sudário­Memória”.

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