Daniel Senise

A Vida e o Tempo

Bernardo Mosqueira

Como disse Heidegger, “a morte é a pedra de toque”, é a presença da possibilidade da impossibilidade de toda e qualquer possibilidade. Mas e a vida? E a vida o que é?  Se a morte é certa e indeterminada, ela é a presença que nos dá o futuro, a vida futura, ela ilumina todas as nossas chances de criação, ação, invenção, realização. Se há de fato um interesse pelo tema da finitude na obra de Daniel, há simultaneamente uma discreta valorização da vida como jogo positivo de funções, como capacidade de gerar mudanças, marcas, perturbações nos ambientes. O seminal “Sansão” (pintura preta e branca sobre plástico laranja de 1984), tentando derrubar as colunas que sustentavam o teto sobre sua cabeça, representava em parte essa tensão entre o esforço criativo e a certeza do fim. “Silvio Romero 34 / dez 09” (que é uma fotografia de 2009 deixada no chão do ateliê sendo marcada pelo dia a dia da atividade criativa), por exemplo, também existe nesse eixo. Há ainda, claro, os sudários (que estabelecem esquemas muito singulares de passagem entre o fluir daquilo que se chama vida para a formalização daquilo que se chama arte), e de maneira próxima a eles há a série pela qual Daniel sobrepõe fotografias mostrando espaços em processo de ruína com objetos, fragmentos ou sudários recolhidos nesses lugares (como no conjunto “Museu do Recôncavo”).

Em todos esses casos, o Tempo nos é apresentado de mãos dadas com o fantasma da finitude. Porém, pelo outro lado, mamamos em seu peito e preenchemos nossas vísceras de força e desejos.

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