Daniel Senise

A matéria do fato

Isobel Whitelegg

Texto publicado na exposição Printed Matter, realizada na galeria Nara Roesler, em Nova York, no ano de 2017.

Esta exposição reúne uma seleção de trabalhos que se ocupam com a página impressa, tratada por Daniel Senise como uma matéria-prima e uma superfície inerentemente significativa. Enquanto seus processos de corte, trituração e pulpação tornam a página ilegível, seus atos de recomposição a traduzem em um campo disperso e mais expressivo para a questão do próprio significado. Este grupo de trabalhos evoca os vínculos frágeis pelos quais o material e o significado são mantidos juntos. Trabalhando com e contra a página, tais obras estabelecem uma conexão entre a destruição e criação, considerados os estímulos que impulsionaram a arte ao longo do tempo.

Três novas obras, Remb., Goya e Gr., compartilham uma fonte comum. Cada uma é composta por páginas cortadas de um livro de arte antigo monográfico produzido pela editora Skira. As páginas que a Senise usou foram aquelas que anteriormente serviram como suporte para ilustrações. As imagens foram removidas, e as páginas foram cortadas e reunidas, formando uma precisa grade de papier collé, cujas variações de cor proporcionam uma ilusão de profundidade. Tiradas da ordem linear e rearranjadas no espaço, a única pista do finalidade original dessas páginas é o seu conteúdo mínimo; um guia abreviado, que indica qual imagem pertencia onde, e que agora aponta para aquilo que falta.

A editora suíça Albert Skira (1904-1973) é conhecida por elevar o livro de arte ilustrado a uma forma de arte em si. A preocupação devota de Skira foi a reprodução das cores, um processo que ele procurou aperfeiçoar e trazer para um público mais amplo. O laborioso método de ‘tipped-in’, no qual cada placa de imagem é impressa separadamente, e colada em seu respectivo lugar dentro do livro, permitiu que a Skira alcançasse as cores mais verossímeis. O trabalho Entre (papel picado do Braque), realizado por Senise em 2013, encapsula o esforço de Skira sob a forma de placas desfiadas, tiradas de uma monografia sobre George Braque. Contidos em acrílicos, os fragmentos emaranhados destilam a obra de Braque em uma paleta tão anônima como distinta das outras desta série.
Os tesouros do mundo e as grandes obras primas que foram objetos dos mais populares livros de Skira nas décadas de 1950 e 1960, tornaram-se menos conhecidos como fatos materiais e mais como imagens imateriais. Nesse sentido, é notável que Albert Skira tenha sido o editor da primeira edição, datada de 1947, do livro que tornaria um dos argumentos mais influentes sobre o poder da reprodução, o Volume I da Psychologie De L’art [Psicologia da Arte] de Andre Malraux, cujo subtítulo é Le Musée Imaginaire [O Museu Imaginário]. O conceito de museu imaginário, para Malrax, referia-se a reunião de obras por um imaginário coletivo, muito superior à de qualquer museu físico. Alienados do seu contexto material, as obras do Musée Imaginaire existem em um domínio imaterial, em que podem ser agrupadas, relacionadas, comparadas e transformadas de forma fluída.

Para Malraux, a arte da reprodução de cores desempenhou um papel de apoio, era um “instrumento” do museu imaginário. O fato de a Skira ter publicado a versão original do Le Musée Imaginaire pode sugerir uma parceria perfeita entre idéia e instrumento, mas a filosofia de Malraux também operava contra a possibilidade de existir um livro perfeito. O “museu sem paredes” de Malraux não é uma enciclopédia visual completa, mas sim uma que não está fixa; é suscetível às exigências da história e está disponível para as transformações produzidas pelos artistas que virão. A transformação dos livros perfeitos da Skira por Senise afirma o poder do fato material singular contra o universo nebuloso da reprodução. Tornado obsoleto como o meio de circulação mais efetivo, o valor de um livro ilustrado é agora medido de acordo com a terminologia singular do livreiro de antiquário, que pesa os tons de idade e os fungos de suas páginas contra a agradável frescura de suas placas de cores sobreviventes. O uso de Senise do livro de arte como material encontrado, mais explicitamente no caso de Mofo, transforma o material quantificado em marcadores qualitativos de tempo, criando uma paleta a partir da qual é desenhado um novo espaço pictórico.

O trabalho Encyclopaedia Britannica de 2015 é um conjunto de 24 relevos de parede monocromáticos de tamanho regular. Como o título e essas superfícies irregularmente manchadas sugerem, cada bloco densamente embalado é formado a partir das páginas recicladas de um volume de Encyclopaedia Britannica. Primeiramente publicada em um rubro arrogante do Império Britânico, a Enciclopédia Britânica propôs “definições e explicações precisas” de todos os termos disponíveis no campo da arte e da ciência. A sua existência impressa sobreviveu a 15 edições e revisões múltiplas até 2012, quando sucumbiu à vida após a morte digital.

Para realizar tal trabalho, Senise cortou páginas da Enciclopédia, encharcou-as e transformou em uma pasta, transformando-as em blocos – que são sólidos, mas surpreendentemente leves – com adição de gesso e cola. Quase cinquenta anos antes disso, o artista britânico John Latham usou uma edição da Encyclopaedia Britannica como material para seu trabalho, empilhando seus volumes em uma torre que foi incendiada em um evento intitulado Skoob Tower Ceremony: National Encyclopaedias. Queimar este livro era um ato deliberadamente iconoclasta e que transformava a queima de livros em um ato de libertação catártico.

Para Latham, em 1966, tal conjunto de livros era um símbolo de um conhecimento contido e restrito como a verdade universal. “O conhecimento é uma ilusão de que as pessoas possuem” afirmou, argumentando que era necessário “comportar-se sem conhecer”. No tempo comparativamente curto que separa duas obras de Latham e Senise, a enciclopédia impressa tornou-se obsoleta como um instrumento de autoridade tangível. Senise herda a Enciclopédia Britânica como um livro canônico que, durante sua vida, foi superado em seu poder e em seu propósito. Suas páginas são inertes; esvaziadas de qualquer carga simbólica, já não oferecem combustível para um fogo iconoclasta. As superfícies dessas obras são ilegíveis, o significado, uma vez expresso por definições, tratados, diagramas e desenhos, ordenados alfabeticamente, forma uma superfície muda que, no entanto, aparece repleta de significado. Como tal, expressam o poder mais duradouro da percepção visual, como meio de conhecimento ancorado pelo fato material do próprio trabalho, além do que pode ser reduzido a uma organização sistemática e excedendo o que pode ser reproduzido.

Na passagem do tempo entre Latham e Senise, é tentador concluir que o poder do livro único e autoritário se dissolveu e que os canais pelos quais o conhecimento e o poder estão ligados tornaram-se tão pouco locálizáveis como as manchas de material impresso espalhadas pela superfície da Encyclopaedia Britannica de Senise. Não podemos mais olhar para uma edição universal, ou um museu universal, e sabemos com certeza que é lá que as rédeas do poder estão. Em meio ao universo obsoleto do livro, no entanto, ainda existem aqueles que são tratados como sagrados, ou seja, os livros sagrados que formam uma base para os três maiores sistemas de crenças religiosas do mundo.

Para aquele que crê, toda reprodução da Bíblia, do Alcorão e do Talmud, não é um livro, é o livro. Como qualquer uma bandeira nacional, é um objeto material tratado com um grau incomum de cerimônia, fundido com uma carga simbólica que tem menos a ver com sua forma material específica e mais com o que foi feito para significar. Ao mesmo tempo, qualquer dependência de um texto de referência parece agir contra a própria natureza da fé, da crença religiosa como uma forma de saber que não depende de sistemas de explicação científica contidos. O BCT de Senise recicla as páginas desses textos em três planos equivalentes, produzindo uma superfície que contém o significado, mas antecipa as explicações. Este ato não é de iconoclasta bruta, mas sim de transformação suave. A existência de um modo de conhecimento compartilhado é mantida em todas essas superfícies difusas, cada uma diferente, porém unidas. Se é uma afirmação, é de equivalência radical.

¹ A versão original do título em inglês é “The Matter of Fact”, expressão que significa “na realidade”. No entanto, a palavra “matter” também possui o sentido de “matéria”, de modo que se trata aqui de uma espécie de jogo de palavras. (N. do T.)

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